I – UMA RUA, UM NOME, UMA VIDA...
“Tudo Compreender é tudo perdoar”
Provérbio Francês.
1.1. A rua
Muitas ruas recebem nomes de personagens anônimos ou pouco conhecidos. É possível reconstituir o passado recente de uma comunidade recorrendo a essa curiosa fonte de pesquisas. Geralmente se encontram, no caso de ruas surgidas a menos de meio século, pessoas na cidade que conviveram com o personagem e podem informar o motivo da homenagem.
A rua Alexandre Parente, sinuosa e acidentada, formada por habitações simples e de baixa renda, fica no bairro Santa Margarida, marcado pela fama de violento. A cidade de Salgueiro, município do Sertão Pernambucano distante cerca de 512 Km do Recife, tem uma área de 1726,4 Km² (IBGE, 2007.) e uma população total de 55.435 habitantes. Situada no entroncamento rodoviário entre as BR 232 e 101, a cidade tem forte vocação comercial. Nos últimos anos, a construção da ferrovia trans-nordestina, de um aeroporto e de um pólo de logística promete aquecer o setor de serviços da região. As obras de transposição das águas do São Francisco também passam pelo município.
Segundo Waldemar Alves da Silva Júnior, professor de Administração de Empresas da UPE Campus Salgueiro, que lecionou no curso de Licenciatura em História da FACHUSC, o planejamento urbano do centro da cidade analisada segue o modelo espanhol, quadriculado. Já sua periferia segue o modelo português, irregular. Como outros bairros da periferia, o Santa Margarida exibe essa irregularidade. Também chamado de “Alto do Curtume”, surgiu numa área acidentada, no lugar onde se situava a antiga empresa de beneficiamento do couro que era produzido na região. O bairro recebeu o nome da sua padroeira e uma capela dedicada à santa foi erigida no alto de um monte, ao redor do qual se estendem suas ruas e vielas. A rua Alexandre Parente se conecta perpendicularmente com as ruas que vão diretamente da capelinha à catedral de Salgueiro. Seu relevo acidentado forma uma letra U, descendo e subindo os morros locais.
1.2. O homem.
A rua foi uma homenagem feita por Chiquinho Rosa, proprietário de boa parte das terras que deram origem ao bairro, a um amigo comerciante, Alexandre da Cruz Parente, filho de uma das famílias mais antigas da cidade. Os dois, emergentes, costumavam participar de festas na época. Essas festas ocorriam em um clube chamado pejorativamente de “Casa de Farinha” porque aceitava pessoas de cor, pobres e mulheres de má reputação.
A casa onde o personagem morou, no centro da cidade, em frente ao coreto da pracinha da catedral, ainda abriga membros da sua família. A fachada possui tijolos muito largos, sendo possível sentar confortavelmente na janela central. Duas portas separam irmãs litigiosas. De um lado vive Dona Natividades, casada com um funcionário público aposentado. De outro, apenas um corredor, parte do muro, banheiro e um quarto, sobrevive Dona Jovita, solteira. A casa está separada por uma meia parede de gesso. É abafada e muito quente nas duas partes. Seus habitantes, idosos, contam uma história de abandono, conflitos e decepções.
Natividades Parente era feirante no mercado público da cidade. No final da década de 1980 casou-se com um coletor estadual aposentado. Limitado intelectualmente, ele foi empregado pelo clientelismo local e explorado pela própria família. Possuidor de bens imóveis e financeiros despertou na esposa o sonho de tornar-se a líder do clã. O patriarcalismo estimulava nos membros bem-sucedidos deste, uma cultura filantrópica que promovia o parasitismo, essa característica dificultou o desenvolvimento econômico familiar. Pouco tempo depois de casados, não tinham muito mais que a maior parte da casa do pai dela e uma aposentadoria. Nem sequer conquistaram a estima ou gratidão dos beneficiados.
Jovita Parente foi à irmã preferida de Alexandre, um solteirão. Ele dividia a casa paterna com ela, outra irmã, Eurides e alguns sobrinhos. Após a morte prematura dele, voltou a viver no sítio do pai. Na década de 1990 teve que se mudar para a casa de Maria, a matriarca, sua segurança estava ameaçada depois do assassinato em que um sobrinho se envolveu e por problemas de saúde. Algum tempo depois, conseguiu a divisão da casa da família para onde se mudou. Passou a viver lá com Dona Eurides e o filho desta, estudante. Mais tarde morou com uma irmã deficiente. Com o fim do sofrimento dela passou a residir sozinha, quase esquecida.
A irmã deficiente, Parenta, tinha um fenótipo um pouco diferente das demais, que parecem portuguesas com alguns elementos indígenas. Ela era morena e franzina. Considerada deficiente mental desde a juventude, foi escondida pela família. Não tinha sequer registro de nascimento, só veio a existir legalmente na terceira idade, para se aposentar rural. Quando teve que sair do sítio, ficou escondida dentro de casa. Tornou-se paralítica. Teve pouco acesso à assistência médica. Viveu mais de oitenta anos e no seu velório o constrangimento de seus orgulhosos parentes era evidente.
A família, numerosa, possui representantes em várias classes sociais e regiões do país. Há os que ainda residem na cidade e seus arredores. Exploradores de fronteiras, muitos se mudaram para o Mato Grosso, principalmente a cidade de Cáceres.
A casa foi comprada por Aristides da Cruz Parente, pai de Alexandre – um comerciante de gado – há mais de 60 anos. O antigo proprietário era Moisés Domingo, pecuarista. O imóvel já foi bem diferente, o terreno comprido e estreito, tinha um teto muito alto, duas salas, um corredor, três quartos, uma cozinha, uma dispensa, dois banheiros e um muro. Foi modificada na década de 90 e hoje, além de dividida, exibe cerâmica no piso e forro no teto.
A família, na época, residia no sítio Aboboreira, na fronteira com Serrita, ainda hoje pertencente ao clã. A casa foi adquirida para terem um imóvel urbano, símbolo de status social e onde ficar quando precisavam pernoitar na cidade. Por esses relatos, fornecidos pelos próprios herdeiros, é possível verificar a prosperidade que a família desfrutou nesse período e como alguns camponeses conseguiam se destacar como negociantes. Em outra versão Aristides teria comprado a propriedade junto com um irmão e a família teria adquirido o resto mais tarde.
Mas essa prosperidade era recente. “Maria Aristides”, a filha mais velha – nasceu em 1920 – relatava a fome que eles passaram durante a seca de 1932/33. Os únicos alimentos disponíveis na região eram o pão de macambira, um cacto até hoje utilizado nas secas como forragem animal e a semente de mucunã, um cipó venenoso. Moradores antigos do lugar narram histórias semelhantes. A seca foi agravada pela Grande Depressão, quando as commodities perderam seu valor no mercado mundial.
O também comerciante e fazendeiro João Parente de Sá Barreto – parente distante de Aristides – mandava o seu filho mais velho, “Papa”, e um empregado, Simeão, buscarem provisões na cidade de Bodocó, na região do Araripe. O trajeto de ida e volta, feito por animais de carga, levava quase vinte dias. Dessa forma, o próspero João Parente, sua família e agregados escaparam da fome. Devem ter recebido do coronel Jeremias Sá de Terra Nova, Pereira Dum das Traíras (atual Distrito de Guarani), Chico Tonheiro de Umãs ou Chico Romão de Serrita, subsídios que estes receberam do governo e dividiram com seus protegidos.
O major[1] João Parente era proprietário de um mini-latifúndio que abrangia boa parte das fazendas Contendas, Tamboril e Riachinho. De uma família influente de Terra Nova, município vizinho a Salgueiro, seria primo da mãe de Glicério Parente, líder político daquela cidade e parente do Cônego Sizenando Sá Barreto, que foi pároco de Parnamirim – outro município sertanejo. (Teve, segundo seu neto, inclusive um parente ministro no governo militar, Hélio Beltrão, neto de um irmão que migrou para a cidade de Altinho-PE.) O filho mais velho, Antonio de Sá Barreto Parente, “Papa”, seria, segundo os sobrinhos, bisavó de Luiza Parente, campeã pan-americana de ginástica artística. Seu empregado Simeão dos Reis, filho de uma escrava, foi levado pelo major para Contendas e viveu mais de um século de vida. Ele e seus numerosos descendentes teriam comprado dos herdeiros do fazendeiro aquela propriedade que hoje desfruta do status de quilombo.
Os rebentos do major migraram para outras regiões do país, tentando escapar da pobreza, dois deles, Pio e Girino[2], trabalharam nas fazendas de café do interior de São Paulo onde se envolveram em conflitos com os feitores locais. Papa, Girino e Chiquinho foram então ao Recife, o primeiro casou-se com uma moça de família importante e tornou-se encarregado da Rede Ferroviária. Girino tornou-se um revendedor de móveis usados em um bairro pobre de Olinda, Peixinhos. Chiquinho acabou casando com uma negra em Alagoas até ser encontrado e trazido pelos irmãos. Dé tornou-se um religioso na Bahia, Cícero e Grangeirinho ficaram na região como suas irmãs mulheres.
Os Aristides sobreviveram à grande seca. O patriarca voltou a comprar gado na região e revender no Agreste e no Cariri cearense. Alexandre e Antônio, os mais velhos, ajudavam-no. Ele e sua mulher Ana Filgueira Parente tiveram ao todo onze filhos, dez ultrapassaram a infância – pois as condições de higiene, a alimentação inadequada e a falta de acesso à serviços de saúde ceifavam a vida das crianças sertanejas. Os rapazes ajudavam o pai com os negócios. As moças auxiliavam a mãe com as tarefas domésticas e o cuidado dos irmãos menores. O progenitor tinha um poder quase absoluto sobre os membros da família, depois dele vinha à mãe e abaixo dela os irmãos e irmãs mais velhos. Para sobreviver a essa hierarquia familiar os mais novos buscavam a proteção de alguém mais poderoso. Essa cultura patriarcal gerou os problemas anteriormente relatados, pois o clã não conseguiu libertar-se da dependência mútua mesmo na maturidade.
O Mandonismo foi beneficiado por esses hábitos, pois o coronel local assumia uma figura paternal em relação aos seus dependentes. Agregados, camponeses e parentes dependiam dele, que apesar de ser um líder paramilitar, representava o estado. Dele provinha proteção ou punição. Muitos sentem saudades de uma época em que se podia dormir de portas abertas. Outros se ressentem de ofensas sofridas e perseguem os descendentes de seus antigos senhores ou simplesmente os temem como antes. O chefe de uma família pobre dependia de um fazendeiro que estava ligado ao coronel. Era o curral eleitoral.
O clientelismo também pode ser associado a esse processo. As famílias do sertão eram numerosas, tinham pouco acesso à educação e serviam de mão-de-obra familiar desde pequenos. Aprendiam a obedecer muito cedo e levavam a lição pela vida afora. Tinham baixa auto-estima e quando ascendiam a um cargo público ou eram bem sucedidos nos negócios se sentiam no dever de favorecer seu clã familiar. Uma prole numerosa e unida era fundamental para o pobre, que precisava de empregados. – Estimulados pelos fazendeiros, que também necessitavam de braços servis e de votos. – e para o rico, que precisava de filhos para casar ou lutar. – Casamentos arranjados eram fundamentais para garantir a ampliação das terras do clã e em arranjos políticos.
Por exemplo, Pio Grangeiro Parente, filho do major João Parente e de Ana Grangeiro – de uma família tradicional do cariri cearense – casou-se com Maria Dolorosa Filgueiras – neta de Antonio Filgueiras Sampaio, líder político de Barbalha – sua prima em segundo grau. O pai dela era um coletor federal, Antonio Correia, tido como pardo[3]. Órfãos na infância, ela e o irmão, Correia Neto, foram criados pelos avós maternos. Alexandre “Jeremias”, irmão de Glicério Parente, casou-se com Solina, sua parente barbalhense, mais rica. Esses casamentos asseguravam a influencia dos clãs cearenses sobre o sertão pernambucano, impedindo que as linhagens familiares se distanciassem.
O atraso socioeconômico da região também foi provocado por esses costumes, uma prole numerosa sem acesso à educação dificultou o desenvolvimento capitalista e transformou o nordestino em mão-de-obra pouco qualificada em outras regiões. O inverso também é verdadeiro, a falta de interesse político e econômico na região facilitou o desenvolvimento de uma cultura de resistência, ligada à tradição. Segundo Manoel Correia de Andrade, as inovações tecnológicas chegavam mais rapidamente ao litoral nordestino, e só muito mais tarde ao interior.
Caio Prado Júnior relata traços da primitiva sociedade colonial (1500-1650) que ainda parecem presentes na sociedade sertaneja do período entre guerras[4]: As cidades eram habitadas pelos fazendeiros que lá mantinham residência temporária. Aqueles mais abastados mantinham milícias com as quais dominavam a região. As normas vigentes beneficiavam os mais fortes em detrimento dos pequenos proprietários. Poucas famílias aparentadas detinham todo o poder local e o resto da população ficava totalmente dependente. (1994). Essa analogia sugere calcular um atraso social de mais de três séculos nessa região e o interesse das oligarquias sertanejas nesse isolamento.
Foi nesse contexto que Alexandre cresceu. Destacou-se pelo porte avantajado e pela sua coragem. A família Parente, da qual seus pais descendiam (eram parentes em quarto grau) destacava-se no comércio e agropecuária mas não eram valentes. A prosperidade levou Aristides a ampliar também sua propriedade rural, a cultura aristocrática da família fazia com que se sentissem monarcas em seu território. O sítio Aboboreira fora herdado do sogro, Alexandre Martins Parente, “médico e aviador” (curandeiro e fabricante de vestimentas de couro usadas pelos vaqueiros) ou comprado dos cunhados. Esse processo geralmente envolvia conflitos, como na Europa Medieval, com outros fazendeiros.
Gumercindo Filgueira Sampaio, líder político local, casou-se pela segunda vez com Maria Nogueira, prima de Ana Filgueira e vendeu uma pequena propriedade herdada pela mulher a Aristides. Clarisbalte Filgueira Sampaio, nome de outra rua da cidade era sobrinho de Maria Nogueira e primo de Ana Filgueira. Inconformado com a perda da propriedade familiar ele provocou um conflito com o boiadeiro. Segundo os relatos, acompanhado por seus empregados, entrou no terreno para tirar madeira, que segundo ele, não teria sido vendida. Alexandre interferiu e para não ser estrangulado, esfaqueou o primo no braço. Uma briga entre rapazes. Francisco Filgueira Sampaio, o coronel Chico Romão de Serrita, tio de Clarisbalte, pensou em punir o agressor e sofreu a oposição de vários familiares e amigos, como Enésio, na época o prefeito daquela cidade e casado com uma irmã do coronel, e Pio Parente, seu aliado.
O coronel Chico estava envolvido com a famosa vendeta denominada “Guerra de Exu” na qual as famílias Sampaio e Alencar se enfrentaram. Os jornais sensacionalistas do Sudeste divulgavam esse conflito como atualmente fazem com as guerras do Oriente Médio, as FARC na Colômbia ou as milícias e traficantes no Rio de Janeiro. Fotos de guerreiros esfarrapados com fuzis na mão eram estampados pela imprensa envaidecida pela superioridade burguesa de sua região em comparação aos irmãos “bárbaros” do “Norte”.
A briga do sobrinho colocou o coronel em uma situação difícil, se matasse Alexandre poderia causar desunião na família, prejudicando a “guerra”. Mas se ele ficasse impune demonstraria fraqueza. Deixar o caso para a justiça, que na época estava sobre o seu controle, pareceu uma boa solução, mas o menino tinha defensores e assim o líder paramilitar teve de amargar esse revés.
Para escapar da perseguição, Alexandre se mudou para Salgueiro que nesse período era dominado pelo coronel Veremundo Soares, adversário político de Chico Romão. Encontrou proteção na figura do médico Severino Alves de Sá, herdeiro da família mais tradicional da cidade e casado com uma parenta de Veremundo, um emergente.
Os conflitos de terra entre parentes eram comuns no período, levas de fazendeiros conseguiram formar grandes sesmarias nas terras conquistadas aos índios locais. Com a divisão da terra entre os herdeiros, começou uma competição dentro dos próprios clãs. Os vencedores são até hoje as lideranças locais, os perdedores uma massa ressentida que não tem do que se orgulhar a não do sobrenome e laços familiares.
Para Mircea Eliade, a cultura popular ocidental preserva traços da religiosidade primitiva. Uma casa ou fazenda, bem como a cidade natal, tornam-se os centros do mundo, são encantados pela relação afetiva desenvolvida pelos seus habitantes. (2001) A fazenda Aboboreira, herança materna onde Alexandre e seus irmãos nasceram e foram criados representava para ele, esse papel.
Os fazendeiros agiam como “nobres medievais” na aquisição e defesa de propriedades, muitas vezes a coação era utilizada para adquirir uma propriedade pelos mais ricos. O processo de expansão capitalista do período do pós-guerra complicava as coisas.
Um pequeno sitiante cujo primo, um rico fazendeiro, interessou-se pelas suas terras, recusou-se a vende-las. “Você está com a razão, mas eu tenho o dinheiro”, esse argumento o fez perder sua amada propriedade, mudar-se para Salgueiro e tornar-se um alcoólatra como alguns filhos e netos. (O outro não tinha filhos, tornou-se um dos homens mais ricos do sertão e na velhice ele e a esposa morreram abandonados pela família.) Seu filho com uma parteira mestiça, é casado com uma Aristides. Depois de envolver-se em uma confusão gerada pelo alcoolismo acabou preso. Como era praxe então, pediu a Dr. Severino, seu parente, que o tirasse de lá. Tendo negado o pedido, aliou-se a família de Gumercindo Sampaio.
Dr. Severino Alves de Sá, genro de Quincas Araújo, aliado de Veremundo Soares, e o primo, Dr. Romão de Sá Sampaio, filho de Gumercindo, parente do Coronel Chico Romão, eram médicos na cidade. Com o declínio do clã Soares, ocuparam o espaço político municipal. Destacaram-se pela honestidade, morreram pobres. Como os Filgueiras Sampaio em Barbalha e os Coelhos em Petrolina, usaram um curioso método. No melhor estilo dividir para governar, o prestativo Dr. Romão, que nunca foi violento, apoio os coronéis locais, seus parentes. Aqueles que ficavam insatisfeitos com essa política recorriam a Dr. Severino cujo lema era: “Ande direito e conte comigo”.
Alexandre e seu pai jamais perdoaram a família Sampaio. Foi ela, no entanto, que o tornou “o homem da família”. Em Salgueiro, longe de sua amada “Brobeira” (a fazenda era assim chamada no dialeto regional) dedicou-se ao comércio. Faliu, plantou uma safra de arroz em uma terra arrendada, passou a comprar produtos locais como a cebola e levar para outras cidades de onde trazia gêneros necessários ao comercio local. Progrediu chegando a possuir três armazéns.
Suas irmãs Jovita e Eurides – a caçulinha enferma e a proferida de Aristides – moravam com ele desde a década de 1950. Mais tarde levou alguns sobrinhos pobres para estudarem na cidade. Seu irmão Antônio, companheiro de viagem pelos Sertões, teve cerca de dezoito filhos. Criava os meninos como fora criado. Jussier, um dos estudantes, lembra da conversa entre os dois. “Você está querendo me tirar os meus trabalhadores?” Perguntou o pai, ao que Alexandre retrucou: “Quer que os meninos se criem ‘uns cavalos’ feito você?”.
Essa percepção da necessidade de educar seu clã não se estendia as mulheres. Suas irmãs foram impedidas de estudar pelo pai. As mais velhas, namoradeiras, fizeram com que temesse a liberdade proporcionada pela educação.
O bom coração do comerciante devem ter impedido que ele constituísse a própria família para tornar-se o provedor do pai e irmãos. Jussier lembra que ele subsidiava a família de Antonio. Conta também o que falavam dele pelas costas, a sua fama de rancoroso e... A frase não foi completada, mas é evidente que um rapaz bem-sucedido e solteiro[5] deve ter incomodado a sociedade machista de Salgueiro.
A origem humilde com certeza seria uma desvantagem e confundia-se com a questão matrimonial. Também tinha fama de avaro, na época de crise, comia rapadura com farinha, costume de vaqueiro. Um livro de etiqueta dos anos 50 e uma versão ilustrada da bíblia católica eram os seus livros. Procurava ser sofisticado, como muitos emergentes da época, frequentando as festas do lugar e participando da vida social do período. Valsava nas festas de formatura sendo um excelente dançarino, isto deve ter afastado muitas pretendentes. As moças mais sofisticadas deviam acha-lo rude, as da roça, afetado. Comprou um Jipe Williams na década de 60 para lazer, negócios e certamente, se exibir. Teve muitos afilhados, alguns se tornaram importantes.
Apesar de intuitivamente ser um bom negociante, não estudou o suficiente. Gostava de se exibir socialmente e dava hospitalidade a seus parentes de outras cidades, mas no lar, continuava mantendo os hábitos simples da infância humilde. Comia como um camponês, dormia de rede, criava animais na Aboboreira. Relatos o descrevem como um “Caipira grosseiro”. A sociedade o aceitava pelo capital adquirido e laços familiares, mas, a mania de afetar uma elegância que ele não tinha devia torná-lo cômico. Era um diletante.
Essa reação não era percebida pelas mulheres da casa. Pensavam realmente serem de uma família importante. Como não podiam frequentar a escola, as atividades da paróquia eram seu passatempo. Jovita se dedicava ao lar. A mais nova se divertia brincando com as outras meninas da rua da matriz. Admiravam sinceramente o irmão e viam nele o príncipe com quem sonhavam se casar. Um modelo masculino. Essa projeção causaria nelas dificuldades de relacionamento com rapazes. Dona Jovita jamais se casou.
À medida que os meninos cresciam, o herói se tornava demasiadamente humano. Namoravam e o ambiente escolar permitia que percebessem o contexto real em que viviam. Devem ter, na fase da auto-afirmação da personalidade, odiado o tio. Era muito autoritário. Não conseguiam se identificar com ele.
A dor do nosso personagem ao perceber a rejeição dos sobrinhos deve ter sido imensa. Renunciara a própria felicidade para lhes proporcionar a oportunidade que não tivera. Não era aceito pelas mulheres desejadas e não podia pensar em abandonar às irmãs. Era mal compreendido agora dentro da própria casa, pelas pessoas que ele mais amava. Estava sem opções. Tinha responsabilidades demais e estava em conflito.
Na década de 1960 começou a apresentar problemas de saúde. As irmãs não sabem precisar sua doença, mas há indícios de que fosse um tumor cerebral, que o deixou cego. Os gastos com a saúde e a impossibilidade de trabalhar o empobreceram. Depois da sua morte, em 1969, Jovita voltou para a fazenda paterna. Eurides, costureira, sobreviveu com um sobrinho pequeno até 1978 quando casou com o neto do Major João Parente.
A família não levou os negócios adiante, os meninos que moraram na casa não aprenderam os negócios nem se identificaram o estilo do tio. Depois dele, tiveram que procurar negociar sem ter a mesma vocação. No campo afetivo, um deles casou-se com a filha de uma dona de cabaré e mudou-se para o Centro Oeste onde sua família prosperou. Outros tiveram dificuldades para manter um relacionamento estável[6], a causa pode ter sido a insegurança que a figura doentia de Alexandre e os conflitos de classe teriam causado na personalidade dos rapazes. Alguns rebentos se destacaram no cenário econômico da cidade, mas, carregam ainda hoje marcas da ausência paterna e desprezam essa família.
Seus parentes acabaram seguindo seu exemplo, deixando de lado o comercio rural e se dedicando a pequenos empreendimentos comerciais nas décadas seguintes. Geralmente mercearias, lojinhas de roupa e padarias. Dessa forma sobreviveram economicamente.
Segundo a família ele teria se recusado a levar o tratamento até o fim, apesar das advertências de seus médicos. Isso reforça a teoria defendida neste trabalho. Como o personagem Menochio de Carlos Ginzburg, que desafiou a inquisição e os valores de sua época, esse “Prometeu[7] sertanejo”, que enfrentou a fome, os coronéis, a falta de escolaridade e a exclusão social e econômica, sucumbiu ao golpe mais traiçoeiro. Sem conseguir atingi-lo diretamente, a sanção social jogou contra ele aquilo que mais amava, seus familiares. Derrotado, sem energia para continuar, preso aos próprios valores com que fora criado e não conseguia romper, nosso personagem não conseguiu enfrentar o seu adversário mais poderoso a doença que o atingiu. É possível que não quisesse mais sobreviver. Desafiou os deuses e foi por eles punido, um personagem trágico.
[1] Muitos fazendeiros do período costumavam adotar a patente do pai ou avó, valorizar ou simplesmente criar seus próprios títulos, como no caso de Veremundo Soares, capitão-cirurgião e de Chico Romão, que segundo fontes não possuía título algum.
[2] O professor itinerante Zé Senhorzinho lecionava o básico aos filhos dos fazendeiros locais, deve ter falado o nome girino, filhote de sapo, o major não sabia o que era, gostou e colocou no filho. Deste intelectual são pérolas do conhecimento como “O homem é um bicho do meio”, provavelmente uma abordagem do famoso princípio determinista “O homem é um produto do meio” adaptado à realidade local: um pecuarista produz bicho.
[3] Antonio Correia era um homem moreno, gostava de ler e era funcionário público. Essa família era discriminada pelos Filgueiras (todas as outras famílias, até mesmo os loiros Callous são discriminados por esse clã).
[4] O autor desse trabalho faz uma comparação entre um trecho de Caio Prado Jr. e os relatos das fontes orais nos quais encontra semelhanças entre os dois períodos e elabora esta teoria.
[5] Segundo a família, a rua onde ele vivia tinha vários outros homens solteiros. Seu tio paterno Pedro, o negociante de gado do padre Sizenando, não foi casado. Seu Chicô sapateiro conta que uma irmã sua casou-se sem conhecer o noivo, num arranjo deste com seu pai, o que revela diferenças culturais na população.
[6] Um dos rapazes, segundo as tias de muito boa aparência, acabou atraindo a atenção de uma mulher mais velha de uma das famílias burguesas da cidade. Esta havia procurado relacionar-se com Alexandre, sem sucesso. Acabou casando com o rapaz, porém o relacionamento não foi duradouro.
[7] Personagem da Mitologia Grega.
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