Este trabalho procura conhecer a biografia de um pequeno comerciante da cidade de Salgueiro-PE, partindo do nome de uma das ruas da cidade. Sua hereditariedade, vínculos familiares e o cotidiano do local, além das relações de classe do seu meio social, serão trabalhados e compreendidos dentro do contexto do pós-guerra e da colonização do Sertão.
A abordagem não se deterá apenas sobre Alexandre seus pais irmãos e sobrinhos. Parentes distantes e algumas famílias unidas a dele por laços matrimoniais também serão apresentadas, particularmente a do major João Parente e seu filho Pio. Essas comparações permitem compreender melhor as relações familiares e os costumes dessas famílias sertanejas. Uma “micro-história”[1] com pretensões literárias, semelhante à narrativa de Carlo Ginzburg, “O queijo e os vermes”, (1986) utilizando o “paradigma indiciário”[2] deste mesmo autor, resultará num “ensaio memorialista”[3] permitindo vários níveis de leitura e narrações semelhantes à “descrição densa”[4] de C. Geertz, que devem agradar aos leitores sem formação acadêmica permitindo simultaneamente aos historiadores boa fonte de análise da realidade sertaneja, e flertando com a polêmica “história alternativa”[5] alemã, baseada em relatos orais.
Cabe aqui um conceito de cultura: a maneira de pensar, sentir e agir de um grupo social, seus costumes, sua forma de se relacionar socialmente, seu modo de produção, sua identidade particular, onde o mais importante é o que se pensa de si mesmo e não a realidade histórica ou social. A cultura surgiu com o próprio ser humano, sendo uma de suas características básicas, possuir e produzir cultura. Qualquer grupo social possui elementos culturais de diversas origens herdadas dos seus ancestrais ou apreendidas do contato com outros grupos e acumular essa cultura torna-se a grande vantagem competitiva da sociedade ocidental. Daí utilizar-se a teoria de Max Weber, de “A ética protestante e o espírito do capitalismo”, na qual a cultura
protestante ligada ao incentivo ao estudo, a valorização do trabalho e da usura, foi a grande responsável pelo desenvolvimento capitalista, ou que pelo menos teve grande contribuição nesse desenvolvimento. A intensa miscigenação cultural ocorrida na América Latina e no Sertão em particular pode ser uma das causas do seu subdesenvolvimento, organizar elementos culturais muitas vezes contraditórios é um processo lento que ainda não pode ser totalmente realizado.
Os objetivos desse trabalho são: conhecer a cidade de Salgueiro nos anos 1950-60 através da biografia de um comerciante e sua família, o reflexo das mudanças ocorridas na sociedade e economia global após a II Guerra Mundial no local e a influencia da sua família na colonização sertaneja. Revelar a influência das construções ideológicas no destino dos familiares e na dominação política do lugar. Registrar a memória de pessoas comuns, (contando a história de um mundo camponês que desapareceu frente ao progresso), analisar a cultura local através delas e os conflitos de classes. Estabelecer comparações entre a conquista do sertão e a do Velho Oeste americano e investigar indícios da influência cultural indígena, negra, cigana, moura e cristã nova sobre a família analisada.
Os poucos estudos historiográficos sobre Salgueiro situam-se em dois extremos, ou analisam a vida dos coronéis e líderes políticos ou as comunidades marginalizadas da região. Pouco se tem investigado sobre as massas que habitavam o município. Compreender essa população é um desafio pela escassez de registros documentais e conflitos entre as versões das fontes orais, mas indispensável para se compreender a história da cidade e se tentar futuramente escreve-la, para isso, se encontrará neste trabalho informações valiosas sobre o cotidiano e as relações de classe no período do pós-guerra, bem como a conquista do Sertão. Para os parentes do personagem e curiosos do passado do lugar pode ser lido como um memorial familiar. Os que preferirem uma abordagem cultural da sociedade ou buscarem temas para suas próprias produções encontrarão muitas possibilidades.
A escolha do personagem entre inúmeras possibilidades teve como motivo principal o fato de ter sido um tio do autor deste trabalho facilitando assim a obtenção das impressões dentro e fora do clã por ter vivido na cidade. A dificuldade de se estudar a própria família foi compensada com o volume de informações obtido e o fato de ser a continuação de uma pesquisa iniciada na adolescência buscando compreender sua própria identidade. O personagem estava numa posição social curiosa, era um pequeno comerciante filho de um boiadeiro e descendia, segundo relatos de diversas fontes, dos fazendeiros que colonizaram a região. Dessa forma, estava socialmente ligado à elite local, mas do ponto de vista econômico, como a maioria dos “brancos pobres” ficava numa classe intermediária entre a família Soares e a massa negra da cidade. Do ponto de vista político era totalmente marginal, sobrevivia graças aos laços estabelecidos com outros comerciantes locais na “Associação Beneficente de Salgueiro”, chamada “Casa de Farinha” por abrigar a “ralé” da cidade, fundada por seu parente e amigo, o médico Dr. Severino Alves de Sá.
Apenas um livro rigorosamente histórico foi publicado sobre a história da cidade, “O coronelismo em Salgueiro: uma análise da trajetória política do coronel Veremundo Soares (1920-1945)”, do professor Waldemar A. S. Júnior, contém valiosas informações sobre o povoamento e desenvolvimento político e socioeconômico do município (2008). Antes dele, alguns autores memorialistas exaltaram fatos curiosos sobre o município, sem valor historiográfico. Pesquisas sobre o quilombo de Conceição das Crioulas, feitas pela orientadora deste trabalho, ainda não publicadas em forma de livro, estão inacessíveis a esta análise.
Pesquisas geonímicas, como o de Paulo M. L. de Menezes e Cláudio J. B. dos Santos, revelam a importância de se fazer esse estudo, observando que ele permite compreender tanto a formação histórica de uma localidade como as suas relações de poder, como no caso de Mossoró-RN, onde a família Rosado domina a política local denominando as ruas da cidade com seu sobrenome, mantendo-se idealizada na memória social, a mesma coisa ocorre no sertão pernambucano (2006).
A teoria adotada gera discussões na Europa e nos Estados Unidos. Surgiu como uma alternativa à historiografia positivista e marxista. Dessa forma a história sócio-cultural usa conhecimentos de áreas como a antropologia cultural, em sua base estruturalista, conciliando com conceitos marxistas como a luta de classes aplicada a nível cultural. O americano Marshall Sahlins acreditava ser necessária outra cultura para compreender uma cultura, (2006) o que nos leva a pensar que pesquisar sua própria identidade só pode resultar num fiasco, mas o próprio Sahlins admite que o passado é outra cultura, portanto é possível ser imparcial com sua história familiar. A analise de Ginzburg em “O queijo e os vermes”, baseia-se em documentos inquisitoriais, ao contrário deste trabalho, memorialista. Utilizando indícios é possível conduzir a pesquisa como uma investigação policial, mas cada nova fonte acresce dados e modifica significativamente a compreensão. Uma forma narrativa de expressão pode perder o objetivo monográfico, fortemente dissertativo. Pouca discussão teórica foi utilizada, mas estão lá os frutos de uma exaustiva análise, quase uma descrição densa no estilo de Geertz. A história cotidiana alemã defendida por Medick, que procura resgatar o indivíduo esquecido pela história social foi atacada por Kocka para quem ele limita a capacidade de análise e carece de metodologia. O francês Roger Chartier propõe um consenso no qual se utiliza análise social dentro de uma abordagem cultural, é o que esse trabalho se propõe fazer. (MARTIN, 2007).
A obra se divide em três capítulos, no primeiro, partindo-se da rua Alexandre Parente, conta-se à biografia do personagem relacionada ao contexto familiar e social e se faz uma tentativa de compreender historicamente sua cultura e psicologia. O segundo mostra as revoluções ocorridas nos anos 1950/60, os contrastes sociais do período e o cotidiano da família de Alexandre e de seu cunhado barbalhense. O terceiro procura narrar a conquista do sertão com base no imaginário popular da família em contraste com a versão dos historiadores, busca também contar a versão dessas famílias sobre sua própria origem e analisar a influencia cultural dos diversos grupos que formaram o biótipo sertanejo e a identidade familiar.
A metodologia utilizada baseou-se na análise de relatos orais, de pessoas da família e das memórias do próprio autor sobre informações recolhidas ao longo da vida. A análise crítica foi adotada nas discussões acadêmicas com alunos e professores do curso de Licenciatura em História da FACHUSC e com a professora Lilita, na Escola Dom Malan. Para conhecer o cotidiano, contribuiu o sapateiro Chicô, valioso não apenas pelos seus conhecimentos como pela visão sóbria e crítica da sociedade local e de Alexandre. Sobre a hereditariedade, contribuíram Inês Callou do Guarani, as irmãs Áurea e Naiza Parente e o popular Luizão. Muita informação sobre o assunto foi recolhida de sites na internet, sem valor acadêmico, mas que são inseridos como relatos orais. A pesquisa bibliográfica foi intensa, além dos livros de Ginzburg e prof. Júnior, usou-se Eric Hobsbawm, Mircea Eliade, Caio Prado Júnior e Manuel Correia de Andrade, além de textos do curso e artigos acadêmicos.
[1] Reconstruir a história de um lugar através da biografia de um personagem real, de uma família ou de uma comunidade. Utiliza para isso, fundamentos da antropologia, sociologia e psicologia.
[2] Construir a pesquisa como uma investigação policial.
[3] Um trabalho teórico, com uma abordagem original sem deixar de lado a conservação da memória familiar.
[4] Narrativa acelerada revelando a forma de agir e pensar de cada grupo envolvido para ser reinterpretado.
[5] Abordagem com pouca fundamentação teórica reconstruindo o cotidiano de um microcosmo social.
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