O período de 1950/60 foi um momento decisivo para a família de Alexandre Parente, apesar de se considerarem ligados por laços de parentesco às famílias Sá e Sampaio e descendentes do fundador da cidade, foram sendo marginalizados e perseguidos pelos ramos mais poderosos do próprio clã e com a ascensão da família Soares nos anos 1920 acabaram totalmente excluídos dos benefícios clientelistas. O declínio do Coronel Veremundo, provocado pelas mudanças ocorridas no pós-guerra, permitiu que pessoas pobres, como Alexandre, tivessem condições de se dedicar a empreendimentos comerciais e se desenvolver de forma autônoma. Mesmo nas décadas anteriores, o desenvolvimento econômico da região causado pelos subsídios que os coronéis e seus aliados recebiam do governo, permitiu a seu pai Aristides desfrutar honradamente algum conforto como comerciante de gado.
Com sua morte precoce, os familiares de Alexandre perderam o rumo, não tinham nenhuma orientação burguesa nem conseguiam entrar nos círculos das elites do lugar. A falta de estudo e vocação comercial acabaram liquidando qualquer possibilidade de ascensão social, além do mais, a cultura residual de fazendeiros rudes e empobrecidos, camponeses ligados à produção agro-pastoril e o comercio de produtos da terra e orgulhosos de suas origens só contribuiu para a decadência familiar. Também seus homônimos barbalhenses com maiores oportunidades acabaram não conseguindo adaptar-se aos novos tempos. Os primeiros, apesar de numerosos, lutam para encontrar sua identidade e seu lugar nessa nova sociedade, sendo cada vez mais excluídos pela incapacidade de valorizar o estudo e a obediência proletária. O outro clã optou pela extinção. A família Parente acabou se beneficiando do pioneirismo de Alexandre, já que alguns primos pobres buscaram seguir seu exemplo e conseguiram dominar boa parte do pequeno comércio local até a década de 1990, quando a globalização permitiu que empresas de outros lugares predominassem na cidade.
A cultura residual dos pioneiros foi uma das grandes desvantagens dos Aristides, que não são ainda hoje capazes de pensar e agir como os imigrantes europeus, em um processo no qual o sertão nordestino guarda em relação ao Sudeste as mesmas diferenças culturais existentes entre o Leste Europeu e a Europa Ocidental. Tanto aqui como na Europa do Leste, o capitalismo provocou relações de dominação que fortaleceram a aristocracia local em
detrimento do desenvolvimento de uma classe média burguesa. Do ponto de vista cultural, a resistência patriarcal e seus valores dificultaram o desenvolvimento econômico, da mesma forma que a região onde existia a antiga Alemanha Oriental após 20 anos de unificação ainda exibe dificuldades de alcançar o mesmo nível de desenvolvimento da parte ocidental. A origem pioneira dos Parentes parece ser verdadeira, embora eles neguem a miscigenação visível tanto no biótipo quanto na cultura do clã. Quanto à ancestralidade judaica (sefardita), os indícios comprovam uma influencia tanto deste grupo quanto dos mouros na cultura familiar, o que não significa dizer que eles tenham essa origem, dada a difusão desses elementos na cultura portuguesa da qual eles inegavelmente descendem.
Este trabalho espera ter convencido os leitores de que é possível fazer um estudo sócio-cultural significativo usando a história oral, sites não oficiais e um personagem comum, bem como a importância de conhecer e registrar a percepção social de um grupo ágrafo em uma abordagem mais literária. Esse modelo permite ainda conciliar a Nova História Cultural com as análises de autores marxistas, construindo um relato interessante sem deixar de lado a crítica dos problemas sociais.
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