sexta-feira, 4 de março de 2011

II – A BELLE ÉPOQUE FAMILIAR.

II – A BELLE ÉPOQUE FAMILIAR.
“O guerreiro em tempos de paz se volta contra si mesmo”.
Friedrich Nietzche

2.1. As “Revoluções” do Pós-Guerra.
Hoje, a rua em que Alexandre viveu abriga predominantemente pessoas na terceira idade que moram no local já há muitas décadas. Representam a decadência da antiga classe de pequenos comerciantes, fazendeiros e funcionários públicos que dominavam a região.
Embora a pirâmide social estivesse centralizada na figura do coronel Veremundo, uma classe intermediária entre os mandões e o campesinato surgiu competindo com a família Soares que monopolizava a economia local. A “casa de farinha” foi o ponto de encontro em que alguns clãs emergentes encontraram espaço para se desenvolver.
Foi nesse espaço que Alexandre aproximou-se de Dr. Severino e Chiquinho Rosa, essas relações permitiram que ele e outros se desenvolvessem apesar dos arrogantes Soares.
A irmã do escritor Raimundo Carrero que ainda habita a casa do pai[1], um comerciante local na época, revela que na sua opinião o mundo foi bom até a década de 1960, as mudanças ocorridas após acabaram com essa Belle Époque.
Segundo Eric Hobsbawm, a maior parte do mundo viveu um período medieval até a década de 1950 ou 60. Claro que não se refere literalmente a um medievalismo europeu. Com a maioria da população vivendo no campo e a renda sendo muito baixa, as condições sociais econômicas e tecnológicas eram distintas da dos países industrializados em processo acelerado de modernização. O pós-guerra estendeu essa modernização aos países atrasados (2004). O sertão era uma das regiões mais atrasadas do mundo e foi inserida nesse processo.
As famílias tradicionais do nordeste foram atingidas por essas mudanças, de um momento para outro a base de sustentação em que se apoiavam, as relações clientelistas entre

os mandões do lugar foram desconstruídas sem que um estado do bem-estar social no nível europeu se estabelecesse. O capitalismo, que efetivamente colonizou o Novo Mundo e foi se afirmando aos poucos no sertão a cada etapa de seu desenvolvimento local eliminava os grupos ligados aos dominadores antigos que a eles opunham resistência. Foi assim com os índios cariris que aos poucos tiveram que competir com grupos nativos ou africanos vindos do litoral. Mais tarde esses sofreram com a invasão dos fazendeiros baianos. O período analisado foi um dos mais traumáticos, para os quais esses homens ligados a terra se viram totalmente despreparados.
A política do período visava a industrialização nacional nos colocando no seleto clube dos NICs (Paises de Recente Industrialização) (IDEM). Essa industrialização estava concentrada no Sudeste, particularmente em São Paulo, e os nordestinos formaram a mão-de-obra barata que subsidiou o desenvolvimento do “Sul”.
A cultura subversiva do pós-guerra escandalizava os conservadores fazendeiros locais e criava conflitos de geração. A exigência de uma escolarização foi determinante para manter o sucesso nas décadas seguintes, os poucos que tiveram a oportunidade de cursar uma universidade nas capitais, os filhos de alguns fazendeiros e comerciantes abastados e esclarecidos fizeram a transição para a classe média e geralmente, substituíram seus pais e avós como senhores políticos do lugar.
As aristocráticas famílias locais negligenciavam estudo, e como no leste europeu, tiveram pouca aptidão para a classe média moderna. O clientelismo empregava os rebentos dos clãs mais influentes, que não precisavam ser competentes para conseguir um emprego público.
Os conceitos de cultura emergente, dominante e residual ilustram esse processo. Modernidade (ou mais precisamente, pós-modernidade) era uma cultura emergente, exigia um bom nível de escolaridade, competência, uma família nuclear. Mandonismo, clientelismo e patriarcalismo dominavam essa região. Ainda havia os elementos culturais diversos do passado ancestral latentes nos costumes dos clãs.
Dessa forma as revoluções mundiais surgidas no pós-guerra encontravam no sertão uma sociedade pouco favorável ao desenvolvimento de uma economia capitalista moderna. E para se desenvolver, o antigo e o moderno se envolveram em um interminável confronto.

2.2. As Décadas de 1950/60.
A cultura patriarcal resistia a modernização da cidade. Para uns a família Soares impediu o desenvolvimento. Outras pessoas acreditam que sem eles a sociedade regrediu. Havia o curtume, fábrica de óleo e bolacha, cinema. A agricultura prosperava. Eram empreendedores brilhantes. Os Parentes sobrevivam estabelecendo laços matrimoniais com outras famílias como a Alencar, Muniz, Torres, Sampaio e Sá. Boa parte deles se destacou na História do município, como políticos, empresários comerciais e fazendeiros.
Os ramos mais conservadores desse clã tiveram menos êxito, a cultura residual impedia que se modernizassem e a própria pobreza tornava o processo de ascensão social muito árduo. Mas a origem pioneira lhes dava algum status útil nessas uniões vantajosas. Para certas fontes, todos os clãs da região seriam aparentados. Três classes formariam o grupo básico das povoações, as “famílias” fazendeiros brancos ou mestiços claros influentes na política e economia procuravam estabelecer relações matrimoniais com seus equivalentes. Os negros e mestiços escuros (cabras) eram explorados pelos fazendeiros ou trabalhavam de chapeado, carregando sacos. Algumas pessoas brancas pobres formavam um grupo intermediário entre as “famílias” e os “cabras”, possuindo terras ou dedicando-se ao comércio. Essas relações de classes ainda existem em distritos da região. As três classes não se casavam entre si. Dessa forma a mobilidade social era restrita. Pobres brancos gozavam de vantagens, eram mais protegidos pelas “famílias”. Os negros enfrentavam um branqueamento às vezes forçado, suas filhas e mulheres se relacionavam com os fazendeiros. Os rebentos de uniões com negras eram protegidos, raramente reconhecidos ou aceitos. Filhos e netos do major João Parente se aproveitavam desse costume. Estes relatos indicam que até a década de 1950, a maioria da população de Salgueiro, branca ou negra, era aparentada entre si. A imigração do pós-guerra modificou essa base genética.
Embora as relações entre os grupos fossem tensas, causando ressentimento, há casos em que clãs negros e “famílias” decadentes estabeleciam uma relação de cooperação e amizade. Histórias como essas se encontram no Sítio Aboboreira, onde as irmãs de Alexandre são defendidas, inclusive de seus familiares, por um afro-descente com quem os Aristides desenvolveram uma sólida amizade baseada no respeito mútuo e consideração. Apesar de não se casarem entre si, os relatos não revelam qualquer conflito ou mesmo sentimento de desigualdade. Alguns membros dessa família negra possuem hoje, um status social muito superior ao desfrutado pela maioria dos Aristides. A pequena propriedade vizinha aos parentes adquirida há muito tempo impediu que fossem explorados e permitiu essa ascensão.
O sítio Contendas mantém relações conflituosas com os fazendeiros locais. Estes contam relatos nos quais o major João Parente teria sido bom com os negros e seus filhos venderam parte da propriedade a eles, as filhas solteiras deixaram suas partes de herança para seus afilhados negros. Isto deve ser verdade, mas a família exibe um racismo ostensivo e possui índole violenta. Existem relatos de atos hostis dos fazendeiros contra os quilombolas. A teoria do professor Pedro de Umãs de que o nome Contendas originou-se do conflito entre os quilombolas locais e fazendeiros é improcedente. A maioria se originou de um patriarca, Simeão dos Reis, empregado trazido pelo major João Parente. Provavelmente esse nome é remanescente dos conflitos entre fazendeiros e índios no século XIX. O sítio Trincheira também deve ter a mesma origem e é habitado por pessoas loiras.
Alguns fazendeiros dependem do trabalho negro, o bolsa-família prejudicou bastante seus interesses. A preguiça e muitas vezes incapacidade física de realizar trabalhos muito pesados, já que os casamentos consanguíneos degeneraram o biótipo de algumas famílias, além da pobreza que impede esses proprietários de pagar um preço razoável aos empregados causaram esses problemas.
A revolução social do pós-guerra modificou essas relações. Brancos pobres passaram a se destacar com seus empreendimentos comerciais. Membros pobres de algumas “famílias” também tiveram espaço. Os valores e costumes acabaram sendo solapados por essas mudanças. Hoje, os remanescentes de grupos surgidos nesse momento se encontram em franca decadência.
Segundo fontes, Alexandre era bastante humano com seus chapeados. Muitos eram seus afilhados ou amigos. Mas suas irmãs não podiam conversar com empregadas nem namorar fora das “famílias”.[2] Segundo certo personagem as elites aristocráticas e burguesas eram muito ignorantes com as outras classes. Ele lembra com ressentimento do preconceito que impedia até que brancos pobres namorassem moças de “família”, e percebe que os problemas de saúde decorrentes da endogamia. As irmãs de Alexandre eram as mais inacessíveis e as mais pobres. A família Soares costumava dançar com as noivas de pessoas de outras classes sociais. Atitudes hipócritas eram promovidas também pelos comerciantes. Para competir com os coronéis, projetavam nas classes subalternas as humilhações que sofriam das elites.
Quanto ao saneamento, a cidade não dispunha na época de água encanada. Ela era trazida de um açude por chapeados nas costas de animais ou nas deles próprios como na época da escravidão. Energia elétrica era gerada por um motor e utilizado no centro da cidade por algumas horas. Naturalmente pertencia aos Soares. Alexandre tinha um rádio ABC movido a pilhas, onde suas irmãs se divertiam escutando novelas. Às vezes assistiam a um filme no cinema local ou freqüentavam as festas com o irmão. Outra diversão da mais nova, que aprendeu a ler sozinha, eram os cordéis como “O Pavão Misterioso”. Quando os primeiros carros chegaram na cidade, as pessoas fugiam com medo. Esse temor chegou aos anos 1940. Os políticos Chico Romão e Glicério Parente adquiriram jipes reformados da Segunda Guerra Mundial. Alexandre deve ter comprado o seu para se parecer com eles. Glicério possuía uma casa vizinha aos Aristides de onde assistia as festas. A caçula Eurides ficava com a chave da casa, o que revela alguma consideração entre as duas famílias, apesar das diferenças sociais. Eles não participavam dos mesmos ambientes que os Soares, descritos com ressentimento pelos homens da família. As mulheres guardam melhores recordações, Veremundo é descrito como amável e a mulher do Dr. Severino tratava as “Aristides” com bastante cortesia. Os Menezes, Carreros e algumas outras famílias da elite local, mais pobres, estabeleceram laços com as “matutinhas” (camponesas), algumas dessas amizades duram até hoje.
Pio Parente com sua esposa e filhos viviam sua era de ouro. A cidade de Barbalha estava sobre o domínio de seu primo e tio de Dolorosa, Luiz Filgueiras, do cunhado deste, Argemiro Sampaio de Serrita e do também primo Dr. Lírio Callou. Segundo os filhos de Pio, a matriarca da família, Sinhá, possuía inclusive escudos portugueses de ouro e castiçais portugueses de ouro e prata. No casarão onde residia estavam retratos de vários ancestrais da família, de origem portuguesa. A influencia política era muito grande, na cidade e região.
Os Filgueiras Sampaio dominaram Barbalha, Jardim, Serrita e tiveram influência política em Salgueiro, Novo Exu, Missão Velha e Terra Nova, seus domínios equivaliam à área do Líbano. No cariri seu império familiar durou mais de um século e meio. Luiz Filgueiras foi acionista de empresas como a indústria automobilística Williams.
Pio herdou parte dos sítios São Pedro e São Paulo e foi muito favorecido por Sinhá. Comprou a fazenda Cirquinha. Plantou mandioca e cultivou cana para sua engenhoca. Depois se tornou dono de um armazém e caminhoneiro. Construiu a melhor casa da cidade no período. Viajou por várias cidades do Nordeste. Seus filhos estudavam no colégio Santo Antonio, organizado pelos padres Salvatorianos. Suas filhas em um colégio de freiras vizinho a sua casa, das irmãs beneditinas. Essas escolas formavam a elite da região e foram fundadas na década de 1950. Estudavam com os melhores professores, boa parte deles padres, alguns estrangeiros.
Taumaturgo Filgueiras Parente, o filho mais velho, gostava de assistir filmes nos cines Nerolí de seu tio-avô Luiz Filgueiras e no Cine Aldeon de Argemiro Sampaio. Os dois únicos cinemas da cidade na época. Claro que não precisava pagar. Com seus primos ricos, costumava frequentar festas nas cidades vizinhas, tornou-se um playboy renomado.
Estavam acima da lei. Certa vez, Major Pio irritado por não conseguir passagem em um avião em Aracajú, disparou contra o avião e como “punição” recebeu apenas um passaporte válido em todo o território nacional. Revendia armas em sua casa. Tinha vínculos com os caudilhos locais, com a perseguição destes, sua casa na Cirquinha foi cercada e revistada pelo exército que não encontrou nada, pois seus poderosos parentes tinham avisado com antecedência e ele as escondeu. Tempos depois chegou a usa-las para libertar dois parentes presos por matarem o membro de outra família importante da região. Chegaram boatos de que a cadeia onde estavam presos fora invadida pela família rival e todos os homens de Barbalha foram mobilizados. Pio participou pessoalmente além de emprestar vários de seus revólveres, rifres e fuzis. Nesse dia fez as pazes com seu primo Luiz Filgueiras com quem entrara em conflito tempos antes por este considera-lo um explorador de sua mãe.
O filho do meio, Geraldo foi estudar em Recife, no colégio Carneiro Leão. Morou na casa de seu tio Girino, em Peixinhos. Ficou chocado com a pobreza do lugar. Embora a capital do estado no período fosse o centro da “civilização” no estado, a pobreza de sua periferia e a exploração do proletariado era bem mais terrível do que no Sertão.
O caçula Iraldo tornou-se alcoólatra, a causa do vício foi atribuída de forma Sócio-darwinista ao “sangue mulato” dos Correias, com os quais se parecia. Na verdade a rejeição provocada pela sua aparência deve ter originado a revolta do menino. O racismo científico do sertanejo originou-se da impressão de superioridade que as novas raças de gado mais produtivos introduzidos na época em relação aos bovinos coloniais com os quais se identificavam por estarem ligados a séculos, somados ao preconceito tradicional dos brancos em relação aos outros grupos e as novas idéias trazidas da Europa pela República e difundidas por intelectuais como Euclides da Cunha, causaram sobre o intelecto das elites aristocráticas locais. O sentimento de inferioridade desses mestiços em relação aos europeus e as populações do Sul, devem ter sido muito fortes. Estimularam uma busca paranóica de auto-afirmação racial, onde os membros claros discriminavam seus irmãos morenos. O próprio Iraldo costumava torturar um menino negro criado por seu tio afogando-o no açude.
De um momento para outro essa família se autodestruiu. Na década de 1960, Pio, depois de uma briga de bar, matou seu melhor amigo e parente. Teve que fugir e vender todos os seus bens. Dolorosa morreu pouco depois de uma doença misteriosa. Suas filhas tiveram que morar em Contendas. A mais velha, Sirley, no auge de sua angustia, invejava os negros tão alegres e felizes vivendo naquela miséria. Os rapazes viraram “pau-de-arara”. Trabalharam em São Paulo e Rio de Janeiro. Pio mudou de nome, “Seu Antonio”, e trabalhou com seu filho Geraldo como caseiro de uma rica madame meio francesa numa chácara em São Paulo.
Os irmãos ficaram deslumbrados com a cidade grande, conheceram a vida cosmopolita tão diferente da que estavam acostumados. Apenas Geraldo que já havia se acostumado à pobreza e a vida na capital se profissionalizou e trabalhou duas décadas como inspetor de qualidade[3]. Taumaturgo e Iraldo, os outros dois, não conseguiram se adaptar e voltaram para o sertão. No final da vida “Major Pio” ainda conseguiu adquirir, com a ajuda dos filhos, a fazenda Riachinho, que pertencia a seu irmão. Viveu 94 anos, deixou ainda um sítio, gado e um nome de respeito. Taumaturgo, solteirão, juntou-se com uma quilombola casada. Sirley passou a viver sozinha.
Os filhos de Luiz Filgueiras se envolveram numa disputa pela herança e se mataram uns aos outros. Os netos envergonhados migraram para outras regiões do país. Estudaram e ficaram ricos novamente. A tradição familiar se perdeu na região.
A política hostil aos coronéis que se desenvolveu a partir da revolução de 1930, e se intensificou com a queda do Estado Novo nos anos 1940, a excessiva divisão das propriedades e a implantação de formas mais modernas de produção capitalista do pós-guerra causaram essas desavenças. O colapso da família patriarcal diante de uma modernização acelerada e as tentações do consumo que destruíram esses valores originou para essa família sua “Grande Guerra”.


[1] Segundo a mesma essa casa onde o escritor passou a infância foi a moradia do fundador da cidade, Cel. Manoel de Sá, que deu nome a essa rua.
[2] Correia Neto, irmão de Dolorosa Filgueiras, casou-se com uma negra e foi abandonado pela sua poderosa família.  Ele, a mulher e os filhos viveram na miséria como punição pela desobediência.
[3] De suas experiências nas em São Paulo e no Rio de Janeiro conheceu uma realidade diferente da sua e aprendeu a lidar com as diferenças, o valor da economia e da humildade. Conheceu gente interessante de vários lugares do mundo e não guarda ressentimento da exploração capitalista da qual foi vítima.

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