sexta-feira, 4 de março de 2011

III – CONQUISTAS E SOFRIMENTOS.

III – CONQUISTAS E SOFRIMENTOS.
Os males por si só se destroem.
Autor desconhecido.

3.1. Ancestralidade e Conquista do Sertão.

Algumas famílias do interior costumam ter uma cultura particular, os sobrenomes dos filhos são escolhidos de acordo com os valores ou tradições que os pais desejam transmitir. Dizem que a família Parente é branca, honesta, pacífica e bons comerciantes. Também são associados à preguiça, acomodação e covardia. Dos Filgueiras, dizem viver pouco, serem orgulhosos e violentos, mas de origem nobre. Dessa forma, os próprios parentes se descriminam de acordo com os próprios valores ou critérios racistas. A família Filgueira Sampaio em Salgueiro e Serrita adotou preferencialmente Sampaio considerando-o mais nobre já que em Portugal esse clã é muito importante, recentemente elegeu um presidente (George Sampaio) teve vários donatários nas índias e títulos de nobreza[1]. Não existe prova de que a família nordestina seja descendente direta destes. Também no Brasil existem vários personagens influentes como Cid Sampaio[2], que foi governador de Pernambuco. Em Barbalha, prefere-se usar o nome do capitão-mor Filgueiras, que participou da Confederação do Equador. Geraldo Filgueiras Parente conta que Alexandre “Jeremias” editou e distribuiu um livro que contava a história dos principais ramos da família. Segundo ele, o capitão-mor teria apoiado uma rebelião de Bárbara de Alencar com cem homens, foi derrotado e preso e ao ser levado ao Rio de Janeiro, fez uma greve de fome e morreu a caminho. Seu filho, “Filgueirinha” também se envolveu em conflitos com o estado e teria sido apedrejado. Este teria uma deformação nos pulsos e seria tão forte que subia em um galho de umbuzeiro montado em seu cavalo.

Estes relatos recordam os exageros do livro “Carlos Magno e os Doze Pares de França”, que sua avó paterna Ana Grangeiro, costumava ler com os seus jovens netos. Esse livro narra as aventuras do imperador franco e seus cavaleiros lutando contra os mouros. Está repleto de princesas, gigantes e seres mitológicos. Relatos medievais das origens do povo ibérico e valores cavalheirescos e belicosos devem ter encantado rapazes letrados e mulheres românticas do sertão que viam em seus bravos ancestrais ou companheiros os valores aristocráticos do livro.
Para Mircea Eliade, culturas tradicionais tendem a encantar as suas origens, criar modelos de conduta e copiar seu proceder, dessa forma se libertam de aspectos insuportáveis da realidade. Romantizando o passado, conseguiam lidar melhor com seus aspectos dolorosos, todas a mitologias das culturas antigas tinham o mesmo motivo, não eram mentiras. (1992) Contavam fatos do passado de uma forma idealizada, fácil de recordar e de admirar. A família Filgueiras se orgulhava de seus patriarcas e imitava seu modo de agir.
A família de Pio Parente isolou-se do mundo após sua decadência nos anos 60. Os sete filhos tiveram apenas quatro netos, de dois filhos homens. Algumas filhas não se casaram para não se misturar com famílias consideradas inferiores e nenhuma delas teve descendentes. Dois rebentos homens foram vítimas fatais do alcoolismo, a maioria escolheu o próprio aniquilamento. Dessa forma repetiram o ato do capitão-mor que teria se suicidado para escapar de sua vergonha.
Segundo uma árvore genealógica da família Callou, o major João Parente de Sá Barreto e sua nora Dolorosa Filgueiras seriam descendentes do fundador de Barbalha, Francisco Magalhães Barreto e Sá, considerado descendente de Men de Sá, terceiro Governador-Geral do Brasil e era filho do Alferes Antonio Pinheiro de Magalhães. O prefeito atual se chama Antonio Inaldo de Sá Barreto, sobrinho da mulher de Glicério Parente, Adélia de Sá Barreto.
As irmãs de Alexandre relatam ter ouvido falar no Filgueirão e seu filho Filgueirinha, mas não se impressionaram tanto com esses relatos. Consideram os Parentes herdeiros da família Sá[3], tão importante quanto a rival Sampaio. Pesquisadores da história local como Marcos Angelim e o popular Luizão confirmam que Aristides seria bisneto de Manoel de Sá, fundador da cidade que, segundo a versão da família, teria surgido em torno de uma capela construído por ele. Um filho, Raimundo de Sá, teria se perdido na mata e a mãe do garoto prometeu a Santo Antonio uma igreja se ele fosse achado. A criança reapareceu milagrosamente dias depois. A cidade, como muitas outras do país, surgiu em torno de um templo religioso, onde as pessoas se sentem seguras e cria-se uma relação de proximidade entre as dimensões do sagrado e o terreal, crimes históricos, como o massacre de populações indígenas, são esquecidos, o espaço é recriado e organizado e o estado se faz presente.
A invenção de genealogia nobre, e de uma tradição de liderança é fundamental para se estabelecer uma dominação política. A identidade da família Sá foi reinventada com o declínio dos Soares. Segundo Sahlins, os povos da ilha de Fiji, no Oceano Pacífico, se envolveram em um conflito liderado por duas famílias nobres locais que ele compara a Guerra do Peloponeso. (2006). Os Sá reinventaram sua identidade sob a liderança do pacífico Dr. Severino e formaram a índole dos Aristides que evitam conflitos e violências com clãs mais agressivos e se ressentem das injustiças sofridas. Dessa forma surgiram os dois partidos atuais: a família Sá pode ser comparada à cidade cosmopolita de Atenas e os valentes Sampaios aos guerreiros de Esparta. A luta pelo controle local dura até hoje. A ligação familiar com pessoas pobres, real ou não, incomoda os burgueses, mas é estimulado pelos políticos, de onde retiram boa parte de seu eleitorado dado o costume patriarcal de se votar nos parentes.
A colonização do Sertão está inserida no processo de desenvolvimento capitalista. Surgido na Europa, o capitalismo se beneficiou da formação da nação portuguesa, um país pioneiro, e de sua vocação marítima e comercial para lançar os portugueses à procura de novas terras e rotas comerciais. Primeiro a metrópole se beneficiou do pau-brasil, depois se lançou à monocultura canavieira. O “desertão” tornou-se lugar de renegados. Com o desenvolvimento e povoação da costa, vários grupos estabeleceram sesmarias, primeiro no Agreste e depois no Sertão. Caio Prado Júnior relata que o norte da colônia foi ocupado por proprietários abastados, nobres e grandes mercadores que estabeleceram grandes sesmarias enquanto no Sul predominaram pequenas propriedades de proprietários modestos. (1994.) A professora Ms. Kênnya, coordenadora do departamento de História da FACHUSC, conta que para o Brasil não vieram nobres, apenas pessoas pobres e alguns cristãos novos, as pesquisas atuais apontam nesse sentido. No entanto, havia na Península Ibérica uma pequena nobreza numerosa, resultado das guerras de reconquista, parte dela pode ter se estabelecido no litoral nordestino. A grande nobreza e a burguesia, boa parte judaizante, deve ter financiado suas atividades econômicas. No caso da Conquista do Sertão, ocorrida muito mais tarde, aventureiros portugueses e membros decadentes das famílias do litoral devem ter se somado aos mestiços emergentes, que transferiram suas engenhocas para as regiões de serra e montaram fazendas de gado na Caatinga nordestina.[4]
As guerras de reconquista na Península Ibérica formaram na cultura desses povos uma tradição guerreira. Grupos morenos lembravam seus inimigos mouros, terras distantes deveriam ser dominadas. Mulheres estrangeiras, conquistadas para a sua cultura. A colonização do Sertão motivou guerras contra os índios e negros que se refugiaram na região para resistir a perseguição do estado, o nome Contendas (e Trincheira), segundo professor Pedro, descendente de quilombolas de Umãs, seria uma recordação desses conflitos.
No sítio Ouro Preto, Antonio da Cruz Neves e um escravo delator, armaram uma cilada para os remanescentes indígenas da região, os homens foram eliminados em um galpão com a ajuda de pistoleiros e suas mulheres e terras se tornaram propriedade do fazendeiro e comparsas[5]. Aristides da Cruz Parente nasceu no sítio Baixio Verde, vizinho ao Ouro Preto, que ainda pertence a seus parentes, era filho de Antonio Alexandrino da Cruz, um fazendeiro que possuía uma engenhoca de rapadura e era sobrinho do autor do massacre. Maria Aristides conta que sua bisavó era uma índia, pega a força e discriminada pela própria família.
A cultura indígena marcou pouco essa família. Mas a aparência mestiça provavelmente dificultou a ascensão socioeconômica dos Aristides. E essa ancestralidade negada por quase todos os parentes, prejudicou a auto-estima e a identidade cultural do clã. Alexandre Martins Parente, pai de Ana Filgueiras, foi agricultor e receitava remédios de plantas, porque não havia outra forma de tratar doenças no seu tempo.  (O primeiro médico de Salgueiro foi Dr. Orlando Paraym, genro de Veremundo, na primeira metade do século XX.) Sua neta Eurides possui uma religiosidade marcante, acredita que doenças e infortúnios são causados por feitiçarias de seus inimigos. Essas características: remédios de plantas e superstições lembram costumes dos negros do Congo, trazidos como escravos para o Brasil. O medo da magia é comum ao catolicismo medieval, dos colonizadores portugueses. Isto indica que deve ter havido uma miscigenação com grupos africanos ou uma difusão cultural do contato entre os avós de Alexandre Parente e seus amigos afrodescendentes realçando superstições medievais.
A família conta que os Parentes descendem de certo Pereirinha que ocupou as terras entre os atuais municípios de Terra Nova e Cabrobó. Seus currais imensos se estendiam pelo sertão. A genealogia de Inês Callou revela que o major foi trineto de Antonio Pereira da Costa, mas não há nenhuma referência a este personagem disponível. O professor Júnior no seu livro fala que um certo Pe Antonio Pereira pediu sesmaria onde hoje está o município. (2008). Esse padre viveu no século XVII e deve ser parente do patriarca familiar.
As terras do sertão pernambucano e cearense ocupados pelos ancestrais de Alexandre foram doadas pela poderosa família baiana Garcia D’Ávila. A casa da Torre acumulou o maior latifúndio brasileiro, para ocupa-los, sesmarias foram distribuídas. Escravos e mestiços foram utilizados como vaqueiros. Boa parte dessas propriedades foi concedida aos grandes senhores do litoral que nomearam administradores de sua confiança, geralmente algum parente pobre. Muitos vaqueiros conseguiram ascender socialmente e adquirir propriedades, já que o salário costumava ser uma parte do gado nascido na fazenda, permitindo que acumulasse recursos e se tornasse fazendeiro. Na região do Cariri, desenvolveu-se o cultivo da cana de açúcar, engenhocas de fazer rapadura e mão-de-obra qualificada foram trazidas do litoral. Antigos senhores de engenho decadentes do litoral e engenheiros (trabalhadores qualificados) bem sucedidos devem ter migrado para esses oásis sertanejos, dando origem aos clãs da região (ANDRADE, 2004). Parcela significativa das famílias do Sertão Central vieram do Cariri Cearense.
O sertanejo surgiu da união entre grupos portugueses, indígenas e africanos, embora sua elite seja considerada branca existem relatos de que muitas famílias importantes possam ter origem mestiça. Brígida de Alencar, ancestral do famoso escritor José de Alencar e vários políticos importantes, é considerada por conhecedores da história local, uma índia adotada por um português.[6][7] (ALMEIDA, 2010) Sua ascensão social permitiu que seus filhos e netos se casassem com pessoas brancas e formassem uma das famílias mais notáveis do Nordeste. Colonos brancos tiveram pouco interesse em se instalar nas regiões tropicais do continente americano, por isso as regiões temperadas tiveram mais facilidade em se desenvolver economicamente, para lá fluíram grupos europeus escapando da pobreza ou perseguições religiosas do velho mundo. Para as regiões quentes vieram pessoas pobres, decadentes ou perseguidas para serem senhores de escravos negros e indígenas. A tecnologia sertaneja, com suas casas de barro e cercas de pau em pé, lembra os usos neolíticos de alguns grupos africanos. Mesmo regiões temperadas, como o oeste americano, exigiram adaptação física e tecnológica dos pioneiros Yankes. No sertão miscigenação, adaptação e difusão cultural formaram vaqueiros, bandoleiros e coronéis. Esses guerreiros da Civilização do Couro são semelhantes aos cawboys do Velho Oeste, esses grupos tiveram de lutar por recursos escassos, movidos pela necessidade de sobreviver, por vingança ou pela cobiça gerando os conflitos e problemas sociais da região. (PRADO JÚNIOR, 1996).
Esta ocupação além de ter gerado graves problemas sociais, teve forte impacto ambiental, cada etapa do desenvolvimento local agravou suas consequências. No início do século XX o Riacho Grande, que atravessa a Aboboreira mantinha um pouco de água no leito, mesmo nas piores secas. Aristides cavava poços para beber e matar a sede do gado. A água vinha de lençóis freáticos ou das serras do cariri. A exploração intensiva secou o riacho. Pio Parente foi, na infância, um caçador de emas que já não existem na região. A fazenda Riachinho ainda hoje é uma propriedade bem preservada, onde aparecem inclusive jaguatiricas, chamadas no local de onça de bode.
Antes dos cercamentos, que valorizaram as propriedades e arruinaram os pequenos criadores, o gado pé-duro de origem portuguesa, bem adaptado ao clima sertanejo, proliferava nas fazendas da região. Junto com outros animais, muitas vezes se tornavam semi-selvagens. Foi a era de ouro dos vaqueiros. Os netos do major João Parente vinham passar as férias no sertão e recordam a farra que era fugir de animais ferozes. Havia fartura de carnes e laticínios, já que apenas o couro era aproveitado[8]. Apenas o caçula, Iraldo, esbelto e moreno com a aparência de um nômade do Saara, dedicou-se a função de vaqueiro. Casou-se com uma moça da família Callou, com quem namorou por décadas, e teve três filhos. Esta família segundo relatos, teve a mesma origem que os Parentes.
Conta-se que o major João Parente tinha irmãos homens que mudaram o sobrenome da família. Um deles adotou o sobrenome Sabiá, migrou para outra região onde seus filhos tiveram uma considerável projeção social (um tornou-se padre e trabalhou no Canadá.) Um tio sentia muito calor e decidiu tornar esse o sobrenome de sua família. O segundo relato deve ser falso, o sobrenome Callou é de origem francesa, talvez tenha nos chegado por Portugal. Endogâmicos, alguns são louros de olhos azuis, tem baixa estatura e tendência para a obesidade. São hábeis vaqueiros e não valorizam o estudo. Esta família tem sua árvore genealógica onde confirmam o parentesco com o major. Os vínculos com Glicério Parente estão presentes, sendo confirmados na versão dos netos do major e da mulher de Glicério, Adélia de Sá Barreto, também parente do major. Conclui-se destas evidencias que sobrenomes e vínculos familiares foram criados ou negados por interesses diversos.
O capitão-mor José Pereira Filgueiras, orgulho familiar, existiu realmente, segundo o Arquivo Nacional, ele nasceu na Bahia em 1758, proprietário de terras no Cariri, lutou a favor do Império na Revolução Pernambucana de 1817, prendendo Tristão Gonçalves de Alencar Araripe e sua Mãe Bárbara. Por esses serviços recebeu o título de capitão-mor do Crato. Foi comandante das forças expedicionárias e esperava receber um título de nobreza. Insatisfeito com o Imperador D. Pedro I aderiu a Confederação do Equador, invadiu Fortaleza ao lado de seu antigo inimigo Tristão de Alencar. Com o fracasso da Confederação foi preso e morreu de febre palustre a caminho do Rio de Janeiro. Percebe-se a contradição com a versão segundo a qual ele morreu de inanição, mas foi a versão idealizada que marcou a cultura familiar. As vendetas de Exu são uma evidencia de que conflitos entre os Filgueiras e os Alencar se estenderam ao século XX. As duas famílias acabaram se casando entre si, resolvendo os problemas entre os dois clãs.
Em uma outra versão o capitão participou também da guerra de independência do Brasil no Maranhão e não morrera durante a viagem como na versão familiar e na oficial. Ele teria escapado e fugido para o interior de Minas Gerais. Lá fundou o sítio Perdigão e constituiu família. O ministro Francisco Campos, que reformou a educação no Governo de Getúlio Vargas, seria seu descendente mineiro. Segundo o professor Marcos Antonio Filgueira, pesquisador genealógico, ele seria filho de um português, José Quezado Filgueiras Lima, vindo para a Bahia no século XVIII, e de uma baiana, Maria Pereira de Castro. Nesse período era muito frequente o casamento de portugueses pobres com mulheres de famílias abastadas e mestiças para clarear as elites.
O sobrenome Pereira é muito encontrado na região sertaneja, provavelmente por causa dos descendentes dos donatários de capitanias que possuíam esse nome e devem ter deixado um número muito grande de descendentes, mestiços criados e afilhados, pois o gentio (índio ou negro) ou judeu muitas vezes recebia o sobrenome dos padrinhos ao serem batizados. Mesmo na metrópole, era muito comum encontrar pessoas com esse nome. Segundo Djanira de Sá Almeida, muito usados pelos lavradores portugueses. Existem até hoje famílias tradicionais de fazendeiros que se orgulham de se chamar Pereira e boa parte da população mestiça brasileira também exibe o mesmo sobrenome.

3.2. Ciganos, Mouros e Judeus.

A historiografia tem dedicado muita energia para resgatar a diáspora africana e um pouco menos a do holocausto indígena. Outras minorias foram esquecidas. Os ciganos estiveram presentes em Salgueiro até a década de 1990, quando Antonio Sampaio, irmão de Dr. Romão e amigo de Pio Parente, permitia que eles se arranchassem no sítio Bode Assado, as margens da BR 232 e próximo à Aboboreira. A beleza da mulher cigana encantava a população que temia sua fama de desonesta e inconstante. Se ela se envolve com alguém de outra cultura, é expulsa da comunidade. Deve ter havido casos de amor com rapazes sertanejos, inclusive filhos de fazendeiros locais, mas o preconceito escondeu essas raízes. João de Sá Parente, ex-seminarista e viúvo, casou-se com sua parenta Maria Aristides. Possuía casas alugadas e fazendas. Tinha fama de ocultista, possuía livros de interpretações de sonhos e dizia ler mãos, habilidade alegada também por Cícero Parente, filho do major João Parente de Sá Barreto, que costumava abrigar grupos ciganos na fazenda Riachinho, chamado por eles de “Os Dois Riachos”, por ser cortado pelo rio Terra Nova e um afluente. A influencia cigana deve ter existido sobre uma parte da família Parente, seja por terem uma ancestral cigana ou pela convivência com esse povo. Menochio de Carlo Ginzburg foi executado pela inquisição por ler os mesmos livros que o marido de Maria Aristides, seu pensamento assemelhava-se ao de grupos indianos, ele também podia ter ascendentes ciganos. Esse grupo nômade foi expulso da Índia muitos séculos atrás e se espalhou pelo mundo. A Espanha foi muito influenciada pela sua cultura musical. Eles não têm pátria e são até hoje, vítimas de preconceitos em todos os países.
Os muçulmanos dominaram a Península Ibérica por sete séculos, ela tornou-se uma das jóias do Islã, símbolo de sua alta cultura, tolerância e riqueza. Nela conviviam árabes, mouros (povos do norte da África), cristãos (moçarabes), ciganos e muitos judeus sefarditas (espanhóis). Com a reconquista, sofreu uma dolorosa regressão cultural, mouros e judeus foram exilados, escravizados ou vitimados pela inquisição. Muitos mouros regressaram aos domínios africanos, poucos restaram na região. Mesmo assim, o tempo que passaram nela marcou a cultura e o biótipo do povo ibérico. A semelhança do ambiente sertanejo com a aridez marroquina e a miscigenação de portugueses com povos negros parece ter criado um tipo de atavismo[9], famílias como a Filgueiras tiveram um papel no desenvolvimento da região semelhante ao de grupos como os grupos Berberes, do Marrocos, vistos com respeito e admiração pelos europeus e usados como soldados durante o Imperialismo[10]. A cultura patriarcal dos Filgueiras Sampaio, clã valente de políticos, fazendeiros e comerciantes tinha tendências poligâmicas e outros costumes dos muçulmanos.
Paralelamente, sobreviveram costumes mais delicados de origem matriarcal semelhantes aos dos judeus sefarditas. Segundo alguns pesquisadores a cultura marrana foi preservada na cultura feminina dos seus descendentes. Judeus ortodoxos consideram de sua etnia apenas os filhos de mãe judia. O que revela o quanto essa linhagem matrilinear é valorizada por esse povo.
Os judeus foram perseguidos pela inquisição espanhola no final do século XV, e muitos (cerca de 120 mil) se estabeleceram em Portugal. Dessa forma, passaram a representar cerca de 20% (200 mil) da população total daquele país na época (cerca de um milhão de habitantes). Formavam a elite cultural e econômica da nação, competindo com a burguesia cristã e incomodando a igreja e a Espanha que agora tinha que se preocupar com os recursos intelectuais e financeiros do vizinho. O casamento do rei português D. Manuel com a filha dos reis de Espanha acabou com o clima de tolerância religiosa no país. Mas ao invés de expulsar os judeus, o ardiloso rei decidiu converte-los à força ao catolicismo. Os cristãos novos continuaram a praticar secretamente ritos hebreus e com o tempo, criaram sincretismos entre a religião judaica e católica. A inquisição perseguiu de forma paranóica qualquer indício de práticas marranas. (GUIMARÃES, 2007.) Foram queimados milhares de pessoas, inclusive grande parte da burguesia e intelectuais. Isso explica porque o reino não conseguiu se industrializar e se desenvolver intelectualmente (KAYSERLING, 1971). 
Apesar de proibirem a imigração, boa parte deles fugiu para países europeus mais tolerantes, como a Holanda que se tornou uma potência financeira, o oriente médio ou as Américas, inclusive o Brasil. Salvador atraiu muitos deles, inclusive familiares do famoso Uriel Acosta, com a implantação da inquisição também por aqui migraram para os estados mais ao norte, ou para o interior, onde podiam viver sem o temor do Santo Ofício. Com o domínio holandês sobre Pernambuco, muitos cristãos novos que já viviam como senhores de engenho ou mascates, voltaram ao judaísmo. Outros vieram da Holanda, como Lourença Filgueira e Manoel Martins (David Abravanel Dormido) descendente de Isaac Abravanel, intelectual judeu. (Davi Abravanel emigrou para a Inglaterra). Com a derrota dos batavos, os ricos voltaram para a Europa, Antilhas ou Estados Unidos, onde fundaram uma sinagoga em Nova York. Os pobres fugiram para a região das Minas Gerais, sobrevivendo como criptojudeus[11].
A família Filgueiras possuí hábitos curiosos. Costumam casar-se entre parentes, a carne em algumas casas é lavada com água fervente para retirar todo o sangue, alguns não gostam de entrar em casas de pessoas de fora da família, Alexandre da Cruz Parente tinha o primeiro nome do avô materno, Alexandre Martins Parente, costumes judeus. Também são muito comuns nomes bíblicos como o do Coronel Jeremias Sá pai de Glicério Parente, e Abraão Correia tio de Dolorosa Filgueiras. Alexandre Parente tinha um primo chamado Nahum, nome judeu. Ana Filgueira, mulher de Aristides e Ana Grangeiro, mulher do major João Parente possuíram cópias do Velho Testamento. Por que senhoras católicas iriam se interessar em possuir apenas a Antiga Aliança de Deus com os Judeus?
Segundo o professor Marcos Antonio Filgueira, existem relatos que indicam uma possível ancestralidade cristã nova para a família. Os Filgueiras de Salgueiro jamais ouviram falar nisso. Sirley Filgueiras Parente contava que a família é de origem portuguesa, sua bisavó tinha retratos de vários ancestrais e lamentava não ter mais quase nada do sangue desse português por causa da miscigenação. O professor Marcos conta que Manuel Dias Filgueira, rico traficante de escravos, tido como cristão novo por José Gonçalves Salvador, pesquisador da origem dos cristãos novos no Brasil, pediu sesmaria no Ceará em 1710. Ele acredita que foi esse o responsável pela vinda da família para a região. O sobrenome de Maria Pereira de Castro era muito comum aos cristãos novos que costumavam ter dois nomes, um judeu e outro cristão.  Existem muitos judeus nos Estados Unidos denominados Filgueiras. Em Portugal há uma cidade na região do Porto (província onde se estabeleceram judeus espanhóis) com esse nome e era comum adotarem também sobrenomes de plantas, animais ou das cidades onde viviam.
A tese do professor Waldemar Júnior, sobre uma possível imigração espanhola para a região de Salgueiro, conduz a outra teoria, a de que judeus sefarditas (espanhóis) participaram na formação da cidade. Os criptojudeus de Portugal tentaram criar a irmandade de Santo Antonio, presidido pelo professor e diácono Antonio Homem, o plano foi descoberto e Antonio queimado pela inquisição (IDEM). Curiosamente esse santo, popular na Itália, Portugal e Brasil é padroeiro das Cidades de Salgueiro e Barbalha[12].


[1] Segundo Djanira Sá Almeida, Doutora em Filologia e Lingüística da Língua Portuguesa, a família Sampaio descende de Vasco Pires de Sampaio um nobre espanhol radicado em Portugal no século XIII, o nome deriva de um toponímico, Sampaio, próximo à Villa Flor, San Payo é uma forma popular de Santo Pelágius, um santo do século III. (ALMEIDA, 2010).
[2] Um primo de Cid Sampaio, Almanir, foi proprietário da fazenda Tamboril que pertenceu ao major João Parente de Sá Barreto. Segundo os netos deste, os dois primeiros são seus parentes.
[3] A família Sá originou-se em Portugal de João Afonso de Saa (saa deriva de solar), um burguês proprietário da quinta de Sá em Guimarães no século XIV. A família Sá adquiriu títulos de nobreza por serviços prestados no Brasil colonial.
[4] Os genealogistas locais que se atribuem origens nobres podem estar certos, parte da população portuguesa tem sangue real, dada à antiguidade de sua monarquia e ao número reduzido da população (Um milhão de pessoas em 1500). Isto vale para boa parte dos lusodescendentes, incluindo a população negra do Brasil.
[5] A rua Caboclo Eduardo é uma homenagem a um menino que sobreviveu ao extermínio de seu povo, foi criado pelos fazendeiros e viveu 114 anos, na versão de Luizão.
[6] Segundo Djanira Sá Almeida eles seriam descendentes de Leonel Alencar do Rego e seus irmãos que arrendaram terras a Casa da Torre em data desconhecida. Uma índia cariri criada por Leonel, Brígida da Virgens Alencar casou-se com um português, José Martiniano Pereira e foi avó de Bárbara de Alencar (2010).
[7] A mãe de Aristides, Alexandrina da Cruz Parente de acordo com a certidão de casamento dele, segundo várias fontes orais se chamava Alexandrina Xavier de Alencar quando solteira.
[8] Os pequenos proprietários e a população pobre das cidades não desfrutavam dessa fartura, há relatos de que pessoas morreram de fome na cidade de Salgueiro.
[9] Quando uma pessoa apresenta características de seus ancestrais distantes.
[10] Boa parte das famílias sertanejas teve origem baiana, onde existiram muitos escravos sudaneses, islamitas. Pode ter havido alguma influência desses Maleses sobre os costumes do interior pernambucano.
[11] O pai de Veremundo Soares era um padre mineiro e seu sobrenome é comum aos cristão novos, o que até certo ponto deve explicar seu empreendedorismo. Ele podia ter sangue judeu.
[12] O que sugere que a família Sá do Brasil também pode ser de origem judaica.

Nenhum comentário:

Postar um comentário